Cesar Maia usa união para resolver problemas
Comunidade remanescente dos desabrigados da enchente que atingiu a CDD em 1996 sofre com serviços precários


JOYCE PIMENTEL 
Uma comunidade com nome composto. Os populares dizem que nome composto é coisa de gente grã-fina. Uma comunidade com o nome do prefeito da cidade: Cesar Maia. Pode parecer deboche e muitos não sabem, mas existe sim uma comunidade chamada Cesar Maia. Localizada em bairro de classe média alta, no limite entre o Recreio dos Bandeirantes e Vargem Pequena, na Zona Oeste, o local é um contraste e nada tem a ver com a situação financeira do entorno. Os vizinhos da comunidade são artistas e empresários que passam diariamente pelo local sem se importar com os problemas dos vizinhos, digamos assim, menos favorecidos. Problemas como falta de saneamento, de água, de iluminação e de escolas públicas parecem ser pequenos na localidade que surgiu em 1996, quando uma forte chuva castigou o Rio e deixou centenas de pessoas desabrigadas na Cidade de Deus (CDD). — Naquela época, as vítimas da enchente que perderam suas casas foram transferidas para cá. O local se chamava Conjunto Comunidade Bandeirantes e então mudamos para Cesar Maia em homenagem ao prefeito que cedeu o terreno do município para que pudéssemos ter um canto para morar — relembrou o morador e aposentado Jarez de Oliveira, de 69 anos, um dos primeiros a chegar ao local. Ele conta que a região era um terreno vazio e que com o apoio da Prefeitura casas foram construídas. Após o fim da administração de Cesar Maia, que foi sucedido por Luiz Paulo Conde surgiu um novo pedaço da comunidade: o Parque Novo Horizonte. — Outras obras foram realizadas e casas construídas na gestão do Conde — disse.

Cobranças indevidas geram dúvidas 

Hoje a comunidade Cesar Maia tem 12 mil habitantes e não há registro de facções criminosas instaladas naquela localidade. No entanto, o maior problema para os moradores refere-se ao Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU). Segundo o aposentado Jarez de Oliveira, os moradores não têm documentação das casas e há 11 anos lutam para conseguir a papelada; mas mesmo assim são obrigados a pagar o imposto. — Por que devemos pagar IPTU se somos remanejados e moramos em imóvel de propriedade da Prefeitura? — questionou. Ainda de acordo com Jarez, nem todos os moradores pagam o imposto. — Quem mora no lado da construção do Conde não paga. Já quem mora do lado do Cesar Maia paga IPTU. Eles dizem que é uma taxa para o recolhimento de lixo — revelou. No entanto, a coleta é realizada por garis comunitários. A Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) recolhe os detritos na entrada da comunidade. — Não há garis da Comlurb trabalhando aqui. O lixo é recolhido pelos garis comunitários que deixam tudo na entrada da comunidade, na Estrada dos Bandeirantes — disparou uma moradora que pediu para não se identificar. A revolta dos moradores é ainda maior quando o assunto é saneamento básico. Na comunidade Cesar Maia as galerias de esgoto, segundo os moradores, são interligadas as galerias de água pluvial. Com as manilhas interligadas o problema surge na hora da chuva, já que o esgoto transborda e o que seria água limpa acaba sendo misturando aos corpos hídricos. — Quando abrimos à torneira a água tem uma coloração amarelada e turva. Sem falar que o cheiro é insuportável. Não dá para usar a água para fazer comida ou na higiene — disse a manicura Janaina da Costa Pereira, de 47 anos. Morando há 11 anos na comunidade e mãe de cinco filhos, ela reclama que o esgoto da Vila 157 e das ruas J e B vivem entupidos. — O bueiro vive vazando. As crianças estão cheias de bronquite e alergias — contou. O aposentado Jarez de Oliveira disse que já informou a situação a Cedae, porém não obteve retorno. — Já reclamamos inúmeras vezes e o que nos informam é que não se pode fazer nada — contou Jarez. Outra insatisfação diz respeito ao fornecimento de energia. Os moradores da comunidade não conseguem entender o motivo da Lightcobrar para a instalação de um relógio. — Uns pagam contam de luz e outros não. Queríamos que a situação fosse regularizada, mas ninguém nos atende. Os técnicos que vêm aqui dizem que para ter relógio é preciso pagar — lamentou Jarez.

Comunidade vira local de disputa de votos

E como estamos em época de campanha eleitoral alguns candidatos têm aparecido na comunidade prometendo mundos e fundos. Até mesmo afirmando que já conseguiram a construção de um posto de saúde. No entanto, a construção do Posto de Saúde da Família (PSF), um programa do Governo Federal, começou a ser construído há alguns meses. — As obras só começaram a sair do papel pelo fato do Governo Federal ter transferido a verba para a Prefeitura. É muita cara de pau dois candidatos a vereador (Girão e Carlo Caiado) vir até aqui dizer que foram eles que lutaram para a implantação do posto — reclamam os moradores. Alguns habitantes da comunidade vão mais longe ao denunciar que candidatos pedem para pendurar faixas na sacada em troca de favores. — Tem gente que aceita um churrasco, uma caixa de cerveja e por aí vai. Por isso, que quando acaba a eleição ninguém volta aqui — contou indignada Janaina Pereira. Segundo a manicura, Cesar Maia poderia ter mais creches e área de lazer para as crianças. A única quadra de esportes da região está em péssimo estado de conservação. — Isso aqui só não está pior pelo fato dos moradores realizarem a manutenção — contou. Prova de que falta de espaço para a construção de uma creche ou de uma escola voltada para qualificação profissional não é problema, é um terreno que começou a ser preparado para abrigar o projeto. No entanto, o local está abandonado. Quem cuida do espaço é Tercício dos Reis Oliveira, que trabalha há um ano no terreno e lamenta o abandono do espaço. — Aqui era para funcionar o centro de qualificação profissional. O pior é que as máquinas de costura e as máquinas de fazer cerâmica estão todas abandonadas sujeitas a ação do tempo — lamentou Tercício, que cuida do terreno junto com outro funcionário.

Crianças estudam com ajuda de voluntários 

Apesar das dificuldades, a união de todos faz com que os problemas, que deveriam ser resolvidos pelo governo, sejam solucionados. É o caso da escassez de creches e escolas públicas na região. A comunidade Cesar Maia possui quatro creches e uma escola para atender cerca de cinco mil crianças e jovens. — A escola atende as crianças na faixa etária do jardim a 4ª série. Como são muitas crianças e poucas vagas, as mães são obrigadas a procurar outras unidades que ficam longe daqui — explicou o morador Jarez, uma espécie de portavoz da comunidade. Como a Creche Municipal Sebastião Bernardes de Souza Prata não consegue atender a demanda a solução foi unir esforços e criar o Centro Social Bandeirantes. No local são ministradas, gratuitamente, aulas de todas as disciplinas para aproximadamente 75 crianças. Tudo isso, só é possível graças ao esforço de duas voluntárias que dividem o tempo de segunda a sexta-feira para atender crianças do C.A. até a 2ª série do Ensino Fundamental. É o caso da professora Georgete Silva, de 18 anos, que durante a semana é responsável por 40 alunos na faixa etária entre 5 e 11 anos e a noite vai para a escola completar os estudos. E para quem pensa que pára por aí, se engana. Nos finais de semana, a jovem trabalha em uma loja. — Trabalhava em casa de família, mas decidi me afastar para me dedicar a ensinar as crianças — contou Georgete, que não recebe salário. Para a jovem professora, dar aula significa poder ajudar e dar oportunidade de futuro para as crianças. Mas para Georgete não há nada que pague o carinho dos alunos por ela. — Esse amor não tem preço. Tudo isso vale a pena quando aparece um aluno de 14 anos analfabeto pedindo para estudar — finalizou.

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